Presidente da Câmara, Hugo Motta, pautou votação sem consultar líderes e relatou queixas sobre articulação política e atuação da Fazenda
A recente votação na Câmara dos Deputados que anulou o aumento do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) escancarou uma insatisfação crescente entre parlamentares e o governo federal. O movimento, liderado pelo presidente da Casa, Hugo Motta (Republicanos-PB), foi interpretado pelo Planalto como um recado claro do Congresso diante de falhas na articulação política e atritos com ministros estratégicos, como Fernando Haddad (Fazenda) e Gleisi Hoffmann (Relações Institucionais).
Segundo interlocutores do governo, Motta teria se incomodado com declarações públicas do ministro da Fazenda que, segundo ele, tentavam associar sua atuação à defesa dos mais ricos. Em postagem recente, Haddad afirmou que os ajustes fiscais atingiriam “os moradores da cobertura”, o que foi prontamente rebatido por Motta: “Toda essa discussão sobre as contas não é sobre quem mora na cobertura ou no andar de baixo. É sobre todos nós que moramos no mesmo prédio.”
A votação do projeto que anulou o aumento do IOF foi feita sem passar pelo colégio de líderes, o que irritou o Palácio do Planalto. Havia um entendimento de que o texto não seria colocado em pauta nesta semana. O governo também demonstrou surpresa com a rapidez da tramitação e viu no gesto uma retaliação pela lentidão na liberação de emendas parlamentares.
Motta também se queixou da atuação do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Flávio Dino, por decisões que têm exigido mais transparência na execução das emendas, o que estaria dificultando o repasse dos recursos. Apesar dos protestos, a Secretaria de Relações Institucionais informou que, mesmo com o orçamento aprovado apenas em março, já foram empenhados 1,78% dos valores, número superior ao de anos anteriores no mesmo período.
Outro ponto de atrito foi a decisão do governo de editar uma Medida Provisória para compensar o aumento da conta de luz, após o Congresso derrubar vetos ao projeto que regula a geração de energia eólica offshore. Motta afirmou que havia um acordo direto com Lula para derrubar os vetos, e que os parlamentares foram surpreendidos com as estimativas de impacto financeiro — cerca de R$ 35 bilhões por ano durante 15 anos.
O governo, no entanto, nega ter descumprido qualquer compromisso. A Secretaria de Relações Institucionais afirmou que o presidente do Congresso, Davi Alcolumbre, foi informado sobre a intenção de enviar a MP para reduzir os efeitos do aumento tarifário. Segundo a pasta, o acordo inicial previa a derrubada apenas de parte dos vetos, mas o Congresso acabou ampliando o alcance da decisão.
O episódio marca mais um capítulo na tensão entre Executivo e Legislativo e acende o alerta para o governo Lula, que já enfrenta dificuldade em consolidar uma base estável no Congresso e vê a pressão por liberação de emendas se intensificar no segundo semestre.